Reproduzo aqui parte do texto do fotógrafo português Manuel Correira, do Jornal de Notícias. É um texto de abertura, de boas-vindas… para dar início às nossas reflexões.
O fotojornalista é visto como alguém que se furta ao convencional; ao social e politicamente corretos. Temos, por vezes, de fugir à ortodoxia e à normalidade, embora sem desvios éticos e de deontologia para se conseguir desempenhar a missão, dada a dificuldade em transpor os muros altos dos poderes instalados, que condicionam a nossa atividade, mais do que a de qualquer outro jornalista.
Somos uma espécie de intrusos, com a particularidade de nos movimentarmos com relativa descontração. As pessoas já se habituaram à nossa presença. Há casos em que até fazemos parte do “happening”. Somos queridos e desejados; detestados e odiados; às vezes, simplesmente tolerados; outras vezes, somos a esperança dos que já a perderam há muito.
O nosso trabalho favorece a visibilidade do real acontecido, consonante com a “verdade dos fatos”, o que nem sempre é assim tão linear. A ficção audiovisual dá uma ideia do mundo que as pessoas interiorizam, mas são as fotos de imprensa aquelas que chocam e são a imagem daqueles que não têm direito à opinião e à imagem física e moral, próprias da sua condição humana.
Deve ter-se em conta o caráter polissémico da foto de imprensa. Tudo depende não apenas dos ângulos de observação, sempre subjetivos, mas também de um conjunto multifacetado de circunstâncias. As imagens de uma ”batida” policial são diferentes, se colhidas do lado dos policiais ou do outro. Mas ela é sempre um testemunho forte. É por isso que, nos casos mais “quentes”, os intervenientes, as fontes, dão o nome e a opinião, mas não dão a cara, hostilizando até a presença do repórter-fotográfico quando a situação não lhes agrada. A máquina fotográfica chega a ser tão perigosa como uma arma, havendo quem diga que é pior. “You shoot, I shoot”!
Há situações em que o fotojornalista é aquele que proporciona o “momento de glória”, mais ou menos efémero, ao registar uma imagem no jornal, tornando-a perene. Em alguns aspectos, a foto pode até transformar-se na “verdade de uma mentira”, sobretudo se o repórter é afastado do caminho que leva a foto até às colunas do jornal. Às vezes, o trabalho é instrumentalizado, tornando-se num encapotado meio propagandístico de eventos.
Nesta disciplina jornalística, chamemos-lhe assim, há um percurso histórico por um lado cativante e credibilizador e, por outro, responsabilizante e aliciante para o futuro. Os repórteres fotográficos conheceram a sua “época dourada” no primeiro quartel do século XX, na sequência da grande evolução tecnológica que o mundo vivia — os “loucos anos vinte”. As tecnologias, que são o “motor de arranque” da evolução da humanidade, estão aí para relançar o fotojornalismo, fazendo-o evoluir no sentido da mediação entre os leitores e a realidade social, numa mundividência de tendências globalizantes e, paradoxalmente, tão cheia de contradições.
Estaremos preparados para assumir essa evolução? Hoje, é a foto e o sistema digitais que se afirmam como “motor tecnológico”, reduzindo bastante alguns condicionalismos com que nos debatemos diariamente, embora trazendo novos problemas e perigos, como a manipulação digital da imagem ou fotomontagem, entre outros.
O repórter tem a sua “janela de observação” na sociedade onde ele próprio se insere e movimenta, numa relação comunicacional quotidiana. Estamos subordinados à lógica dos acontecimentos, mas também condicionamos essa mesma lógica. Comunicar (do lat. comunicatio), quer dizer, “pôr em comum”, é o que fazemos numa dimensão onto-antropológica de ser com os outros, utilizando a linguagem fotográfica. Melhor, fotojornalística.
Na essência, somos jornalistas de corpo inteiro, talhados para a notícia, para a reportagem, para a entrevista. Não somos fotógrafos no sentido mais pragmático e clássico do termo, cujo fim é a fotografia em si mesma. A razão de ser da “fotografia de imprensa” é o jornalismo. .
O fotojornalista é um operador da fragmentaridade. É ele que escolhe “isto” e não “aquilo” no momento de registar na película (no suporte digital, mais ainda) aquela fração de segundo de algo que aconteceu e merece ser notado — daí, ser notícia. Esta é a razão perceptiva que o legitima como jornalista.
